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O Sentido da Palavra...
O Sentido Da Palavra... Cada palavra tem o seu sentido e cabe a cada pessoa ser a partir dessa palavra, expor o melhor que existe em si e tentar assim passar uma mensagem concreta e verdadeira para o mundo. Assim temos o verdadeiro sentido da palavra.

01/05/2007 GMT 1

A Mulher Selvagem

outsider @ 00:10

mulher1.jpgSua beleza é arisca, arredia aos modismos. Ela encanta por um não-sei-quê indefinível... mas que também agride o olhar. É um tipo raro e não tem habitat definido: vive em Praga, mora no prédio ao lado ou se mudou ontem para o Porto. E não deixou o endereço. É ela, a mulher selvagem.
Em quase tudo ela é uma mulher comum: vai de metrô cheio, aproveita as promoções, coloca o lixo fora de casa e tem dias que desiste de sair porque se acha um trapo. Porém em tudo que faz exala um frescor de liberdade. E também dá arrepios: tu tens a impressão que viste uma loba na espreita. Tu ficas assustado, olhas de novo... e quem está ali é a mulher doce e simpática, ajeitando dengosa o cabelo, quase uma menininha. Mas por um segundo tu viste a loba, viste sim. É a mulher selvagem.
A sociedade tenta mas não pode domesticá-la, ela se esquiva das regras. Quando tu pensas que a capturaste, escapole feito água entre os dedos. Quando pensas que finalmente a conheces, ela surpreende outra vez. Tem a alma livre e só se submete quando quer. Por isso escolhe seus parceiros entre os que cultuam a liberdade. E como os reconhece? Como toda loba, pelo cheiro, por isso é bom não abusar de perfumes. Seu movimento tem graça, o olhar destila uma sensualidade natural - mas, cuidado, não passes a mão. Ela é a mulher selvagem, não esqueças. Gosta de afago mas também arranha.
Repara que há sempre uma mecha teimosa de cabelo: é o espírito selvagem que sopra em sua alma a refrescante sensação de estar unida à Terra. É daí que vem sua beleza e força. E sua sabedoria instintiva. Sim, ela é sábia pois está em harmonia com os ritmos da Natureza. Por isso conhece a si mesma, sabe dos seus ciclos de crescimento e não sabota a própria felicidade. Como todo a mulher selvagem ela respeita seu corpo mas nem sempre resiste às guloseimas. Guerreira do mato, gabriela cravo e canela? Não necessariamente, a maioria vive na cidade. E há dias gosta daquele pretinho da montra. E adora dançar em noite de lua. Ah, então é uma bruxa... Talvez, ela não liga para rótulos. Sabe que a imensidão do ser não cabe nas definições.
Mulheres gostam de fazer mistério. Ela não, ela é o mistério. Por uma razão simples: a mulher selvagem sabe que a vida é algo assombrosa e perfeita, é viver o mais sagrado dos rituais. Ela sente as estações e se movimenta de acordo com os ventos, rindo da chuva e chorando com os rios que morrem. Coleciona pedrinhas, fala com plantas e de uma hora para outra quer ficar só, não insistas. Não, ela não é uma esotérica deslumbrada mas vive se deslumbrando: com as heroínas dos filmes, aquela livraria nova, o CD novo... Ela se apaixona, sonha acordada e tem insónias por amor. As injustiças do mundo a angustiam mas ela respira fundo e renova sua fé na humanidade. Luta todos os dias por seus sonhos, adormece em meio a perguntas sem respostas e desperta com o sussurro das manhãs em seu ouvido, mais um dia perfeito para celebrar o imenso mistério de estar viva.
Ela equilibra em si cultura e natureza, movendo-se bela e poética entre os dois extremos da humana condição. Ela é rara, sim, mas não é uma aberração, um desvio evolutivo. Pelo contrário: ela é a mais arquetípica e genuína expressão da feminilidade, a eterna celebração do sagrado feminino. Ela está aí nas ruas, todos os dias. A mulher selvagem ainda sobrevive em todas as mulheres mas a maioria tem medo e a mantém enjaulada. Ela é o que todas as mulheres são, sempre foram, mas a grande maioria esqueceu.
Felizmente algumas lembraram. Foram incompreendidas, sim, mas lamberam suas feridas e encontraram o caminho de volta à sua própria natureza. Esta crônica é uma homenagem a ela, a mulher selvagem, o tipo que fascina os homens que não têm medo do feminino. Eles ficam um pouco nervosos, é verdade, quando de repente se vêem frente a frente com um espécime desses. Por isso é que às vezes sobem correndo na primeira árvore. Mas é normal. Depois eles descem, se aproximam desconfiados, trocam os cheiros e aí... Bem, aí a Natureza sabe o que faz.
Esta é a mulher selvagem, a mulher que possuem o antagonismo da vida dentro e fora de si. A mulher selvagem existe e será eterna entre a sociedade mundana dos homens e nunca será extinta.

Outsider

Comentários

Comentários(3) »

  1. Sou o autor da crônica "A mulher selvagem". Não sei onde você conseguiu esta versão do texto mas ela está alterada em várias partes. O texto original está em meu site: www.ricardokelmer.net/rktxtamulherselvagem.htm

    Obrigado.

    Ricardo Kelmer

    Ricardo Kelmer | 13-05-2007 - 02:19:30 GMT 1 #

  2. bem ricardo..se n fosse esta postagem eu nunca conheceria seu trabalho..e as adaptações..achei lindas...e fui ver seu trabalho tb....td perfeito!

    annie | 10-03-2008 - 02:46:17 GMT 1 #

  3. Oi, Annie

    O último parágrafo do texto não faz parte do texto original. E as outras alterações (termos e expressões substituídos) me parecem ter sido feitas com o objetivo de tornar o texto mais compreensível em português de Portugal.

    Aproveito para atualizar o endereço da crônica em sua versão original: http://blogdokelmer.wordpress.com/2008/07/04/a-mulher-selvagem

    Obrigado

    Ricardo Kelmer | 24-01-2009 - 19:06:33 GMT 1 #

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